O skate chegou ao Brasil no fim dos anos 1960, trazido junto com a cultura do surfe da Califórnia. A modalidade ganhou força na década seguinte: em 1972, surgiu uma revista voltada ao público jovem que ajudou a espalhar a prática pelo país, e em 1976 foi inaugurada, em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, a primeira pista de skate da América Latina.
O crescimento inicial não durou. No fim dos anos 1970, fabricantes de peças deixaram de investir em produtos específicos para a modalidade, patrocínios e campeonatos minguaram, e o skate quase desapareceu do circuito oficial. Sobreviveu porque quem já andava continuou andando, construindo rampas particulares e mantendo a cena viva à margem do mercado.
Em 1984, por iniciativa dos próprios skatistas, o esporte voltou a ganhar corpo, e foi nesse ressurgimento que nasceu o street skate, transformando elementos urbanos como escadas, corrimãos e meio-fios em obstáculo.

Quando andar de skate virou crime
Foi justamente esse crescimento urbano que colocou o skate em rota de colisão com o poder público. Em São Paulo, o Parque Ibirapuera havia se tornado o point favorito dos skatistas de rua: chão liso, cobertura das marquises protegendo de dia de chuva.
O problema é que o gabinete do prefeito Jânio Quadros ficava a poucos metros dali, no Pavilhão Manoel da Nóbrega. Em agosto de 1986, Quadros deu as primeiras ordens para coibir a prática no parque, orientando a Guarda Municipal a confiscar skates de quem andava por ali.
O relato de skatistas da época descreve batidas frequentes: em uma delas, um grupo inteiro teve os equipamentos apreendidos enquanto um dos amigos foi ao banheiro de uma lanchonete próxima e voltou para encontrar todo mundo já abordado.
O atrito entre skatistas e guardas municipais foi crescendo até a proibição virar lei oficial, publicada em memorando no Diário Oficial em 19 de maio de 1988. A resposta veio organizada. Skatistas puxaram uma passeata que saiu do metrô Paraíso e seguiu até o Ibirapuera, reunindo cerca de 200 pessoas com faixas e megafones, na tentativa de entregar ao prefeito uma carta pedindo a revogação da lei.
O parque estava fechado quando o grupo chegou, o que só aumentou a revolta do movimento. São Paulo não foi um caso isolado. Municípios pelo país inteiro criaram leis parecidas no fim da década de 1980, e a duração dessas proibições variou bastante. Em Blumenau, Santa Catarina, por exemplo, a prática só foi legalizada de volta em 2007, quase 20 anos depois de banida.
Em São Paulo, a virada aconteceu em 1989, quando Luiza Erundina assumiu a prefeitura e revogou a proibição, tratando o skate como esporte a ser incentivado em vez de reprimido. A partir dali, o esporte entrou numa trajetória diferente: cresceu ao longo dos anos 1990 e 2000, ganhou pistas públicas, campeonatos organizados e reconhecimento gradual como prática esportiva legítima, não mais como caso de polícia.
A entrada no maior palco do esporte mundial
O salto definitivo veio em 2021, quando o skate estreou como modalidade olímpica nos Jogos de Tóquio, nas categorias street e park. O Brasil chegou ao pódio logo na primeira aparição: Kelvin Hoefler conquistou a prata no street masculino, e Rayssa Leal, então com apenas 13 anos, levou a prata no feminino, tornando-se uma das medalhistas mais jovens da história olímpica do país.
A trajetória de Rayssa nos anos seguintes reforçou essa entrada em grande estilo. Depois de Tóquio, ela acumulou títulos como os Super Crowns de 2022 e 2023, o título mundial de 2022, o vice-campeonato mundial de 2023, o título pan-americano em Santiago 2023 e dois ouros em X Games, consolidando-se como uma das principais nomes do street mundial.
Em Paris 2024, ela voltou ao pódio olímpico. A final foi de tirar o fôlego: Rayssa caiu na primeira volta da disputa, viu a pontuação inicial ficar comprometida, mas fechou a prova com duas manobras de nota alta que garantiram o bronze, sua segunda medalha olímpica. Aos 16 anos, tornou-se a atleta brasileira mais jovem da história a conquistar duas medalhas olímpicas.
O Brasil também levou outros nomes a Paris: Pâmela Rosa, Gabriela Mazetto, Felipe Gustavo e Giovanni Vianna disputaram as categorias street, ampliando a presença do país num esporte que, menos de quarenta anos antes, era motivo de apreensão de equipamentos pela Guarda Municipal.
Essa é a distância que o skate brasileiro percorreu: da marquise do Ibirapuera, onde skates eram confiscados por guardas municipais, ao pódio da Praça da Concórdia, em Paris, representando o país diante do mundo.
Um esporte que a QIX ajuda a manter vivo
Essa história de resistência e conquista não fica só no passado. Há mais de 30 anos, a QIX Skate Shop trabalha lado a lado com atletas que carregam essa cultura para frente, do skatista que está começando na pista do bairro ao competidor que representa o Brasil lá fora.
Fomentar o esporte é também sustentar quem faz parte dele todos os dias, nas ruas, nas competições e nas próximas gerações que ainda vão escrever esse capítulo.
Perguntas frequentes
Por que o skate foi proibido em São Paulo?
A prefeitura de Jânio Quadros considerava a prática uma perturbação no Parque Ibirapuera. A proibição virou lei oficial em maio de 1988 e foi revogada em 1989, na gestão de Luiza Erundina.
Quando o skate virou esporte olímpico?
O skate estreou nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021, com as modalidades street e park, e seguiu no programa em Paris 2024.
Quantas medalhas olímpicas o Brasil já tem no skate?
Até Paris 2024, o Brasil somava três medalhas olímpicas no skate: a prata de Kelvin Hoefler e a prata de Rayssa Leal em Tóquio 2020, e o bronze de Rayssa Leal em Paris 2024.